Os desafios e o que esperar do mercado farmacêutico em 2016?

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Entrevista com Professor e Consultor “Fernando Muterle” – Revista Gestão & Negócios

 

  1. Devido à crise econômica, estima-se que o Brasil tenha sofrido uma grande queda no consumo de diversos produtos, mas o mesmo não ocorre no setor farmacêutico, onde existe uma previsão de crescimento de 18% este ano, atingindo R$ 87 bilhões em 2017, é verdade? Por que este é um setor blindado e que cresce assim?

O envelhecimento da população, e a abertura de novas lojas e o aumento do poder de compra sustentam o aumento de dois dígitos no faturamento das redes de farmácias e drogarias. Muitas vezes, o paciente que precisa de remédio deixa de comer ou comprar um alimento para dar conta do tratamento medicamentoso.  Isso gera um impulso na economia impedindo que o segmento sinta as crises e as oscilações econômicas de forma mais dura. Ainda no ano de 2012, especialistas já faziam suas previsões quanto aos números estratosféricos de, aproximadamente, R$ 90 bilhões em 2017, seguindo uma projeção de crescimento de anos anteriores. Mas até o momento não consegui apurar, nas instituições responsáveis pelas informações, como SINDUSFARMA (Sindicato da Indústria Farmacêutica) e consultoria IMS Health, se realmente já alcançamos esses números.

 

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2. Acredita que levando isso em consideração, este é um mercado que pode surgir com diversas tendências e novidades? Isso já vem acontecendo?

É possível sim. O fluxo econômico do mercado farmacêutico nunca se apresentou de maneira homogênea. Apesar do crescimento vertiginoso dos últimos anos, os farmacistas precisam buscar estratégias de inovação e diferenciação para evoluir neste senário tão adverso. As tendências e novidades sempre vão se modelar as necessidades do mercado. Um exemplo claro disso foi a implantação dos chamados Serviços Farmacêuticos Avançados, pelas grandes redes. O programa é voltado para clientes em busca de tratamentos para parar de fumar, perder peso, controlar o colesterol, diabetes e pressão arterial, entre outros trabalhos importantes de fidelização e, com certeza a tecnologia e os sistemas de informação vão continuar criando novas tendências.

 

 

3. No que exatamente o varejo farmacêutico inovou e mudou nos últimos tempos? E quais as tendências daqui para frente?

Nos últimos anos pudemos ver uma grande ação das associações do segmento farmacêutico e consultoras, desenvolvendo ferramentas importantes que permitem à farmácia captar, em detalhes, o perfil de compra dos clientes de acordo com a região do país, permitindo assim, adequar às compras e o estoque. Dessa forma, é possível saber realmente qual o mix de produtos está adequado ao comportamento de consumo de sua região, com qual portfólio trabalhar para minimizar a perda de vendas em sua farmácia e como aproveitar as oportunidades de crescimento.

Acredito que novas tendências, como o delivery e o e-commerce, já são uma realidade. Também se farão necessárias a revitalização das lojas, com a reorganização dos espaços, para que se tornem mais atraentes e conformáveis e, lógico, a oferta de novos produtos, que contribuem para a fidelização dos clientes. Podemos observar também um novo nicho de mercado que são as franquias e que têm mostrado seu espaço no mercado varejista.

 

014. O aumento do consumo de produtos por e-commerce também é algo que faz esse mercado decolar? Quais são as peculiaridades desse segmento no e-commerce? O que torna tão atrativo o consumo farmacêutico via internet?

O delivery de medicamentos pela internet representa a comodidade para o consumidor, e a grande vantagem da compra pela Internet, em relação ao telefone, é a possibilidade de se pesquisar cada medicamento, verificar indicações e contraindicações, ler a bula e visualizar remédios similares. Além disso, é possível consultar frete e tempo de entrega.

O aumento do comércio de medicamentos faz parte de uma nova fase, influenciada por uma mudança de cultura dos usuários, na qual o serviço de delivery começa a migrar do telefone para a web.

O setor de compras online, em 2015, registrou um crescimento nominal de 15% no faturamento, movimentando R$ 41,3 bilhões. A previsão é de que, até o final de 2016, esse número alcance R$ 44,6 bilhões, o que representa um aumento de 8%. (Dados do 33º relatório WebShoppers, da E-bit/Buscapé, divulgados em fevereiro/2016).

 

5. Muitas empresas já se adequaram a esta nova realidade ou ainda falta muito?

É mais do que perceptível que as grandes redes de farmácias e drogarias já são predominantes no varejo farmacêutico nacional. Enquanto isso, as farmácias independentes encolheram de 55% para 30%. Os dados são do IMS Distribution Services. Diante de tal fato, ainda se faz necessário que o empresário independente amadureça sua visão global de negócio e gestão, pois busca muito conhecimento técnico e não investe em conhecimentos administrativos.

Muitos empresários de farmácias e drogarias são carentes de informações técnicas do setor, de treinamento em marketing, de conhecimento de gestão empresarial. Os farmacistas e farmacêuticos que conhecem tudo, na verdade estão atrasados e tendem a ficar fora do mercado, e as farmácias e drogarias que já se adequaram às novas tendências ainda precisam de inovações. Quem conhece tudo, deixa de aprender o resto. As farmácias e drogarias possuem vida própria e só quem conhece profundamente o seu negócio consegue avaliar a melhor estratégia.

A improvisação faz com que muitos farmacistas e farmacêuticos copiem alguns modelos de pontos de vendas sem analisar e avaliar a própria loja e suas necessidades. São decisões e estratégias isoladas, sem a devida observação das necessidades dos consumidores. Portanto, ainda temos um longo trabalho para nos adequar a uma realidade metamórfica (de metamorfose).

106. É possível existir redes de farmácias apenas online, sem loja física?

Não é possível, porque as farmácias e drogarias devem possuir Autorização de Funcionamento de Empresa (AFE) expedida pela Anvisa; Licença ou Alvará Sanitário expedido pelo órgão competente Estadual ou Municipal da Vigilância Sanitária; Certidão de Regularidade Técnica emitida pelo Conselho Regional de Farmácia, Manual de Boas Práticas e, no caso de farmácia que manipula substâncias sujeitas ao controle especial (Portaria 344/98 e suas atualizações), a Autorização Especial de Funcionamento (AE) expedida pela Anvisa.

Além do mais, em 2009 a ANVISA publicou um informativo definindo normas para o comércio pela internet. Para oferecer medicamentos na web, as farmácias devem existir fisicamente e estar abertas ao público. Só são aceitos endereços “.com.br”. As farmácias e drogarias que quiserem comercializar medicamentos por via remota devem informar em seu endereço na internet, o nome e telefone de contato do farmacêutico de plantão para atendimento ao usuário. Além disso, o estabelecimento tem de publicar os alertas sanitários da Anvisa, que ficarão à disposição do internauta.

 

7. Na sua visão, o mercado farmacêutico como um todo seria um mercado caro para investimento? Ele abre mais as portas para micro, pequenos e médios empreendedores ou apenas grandes empresas?

Sem dúvida é um ótimo modelo de negócio para investimento. Não considero caro, visto que esse investimento pode variar de R$ 40.000,00 a R$ 200.000,00 dependendo da estrutura física, localização, público-alvo e estrutura de vendas escolhida pelo empreendedor.

Este modelo de negócio permite que micro, pequenos e médios empreendedores também desenvolvam essa atividade, mas temos sempre que lembrar que é necessário avaliar bem os critérios básicos antes de escolher o ponto para montar a farmácia. A fim de diminuir riscos do negócio, é preciso, por exemplo, verificar junto à Prefeitura o Plano Diretor da cidade, para analisar se realmente é possível montar uma farmácia naquele local.

 

018. O que querem os consumidores deste mercado?

No topo da tabela estão os medicamentos, mas logo a seguir estão estes itens tão atraentes: os HPCs (Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos), que têm tomado proporções astronômicas quando olhamos para os números.

Segundo uma pesquisa realizada em 2013 pela Datafolha/ICTQ, a maioria dos consumidores desse nicho de mercado são as mulheres, representando 55% dos compradores de farmácias e drogarias, e possuem em média, 41 anos de idade. Os consumidores do sexo masculino somam 45%.

 

9. O mercado brasileiro, de fato, na sua opinião, está sabendo aproveitar bem esse mercado ou deixa a desejar?

Sim, na minha opinião estão aproveitando bem as oportunidades, principalmente as grandes redes, que já desenvolvem um modelo de negócio moderno e são equipadas de profissionais que estudam e buscam novas oportunidades. O empresário de farmácias e drogarias independentes é um solitário, carente de informações técnicas do setor, de treinamento em marketing, de conhecimento de gestão empresarial, temerário quanto ao crescimento das redes. Vale ressaltar que as ameaças e as oportunidades é são mutáveis e a velocidade das mudanças deste quadro também é dinâmica e acelerada. Não existe uma situação estática e permanente.

 

0410. Cite algumas dicas para quem deseja aproveitar a tendência e abrir um negócio na área.? O que vai ser interessante daqui para frente?

Dados publicados recentemente têm mostrado que, no ramo industrial, quem tem se destacado, sobretudo na última década, é o setor farmacêutico, com crescimento recorrente de dois dígitos, e estima-se que este se aproximará dos R$ 90 bilhões em vendas, em 2017. O Brasil é dos países mais vaidosos do mundo e com o envelhecimento da população, abrir a própria farmácia pode ser uma ótima ideia, contando com produtos de beleza e higiene, além dos medicamentos, e atraindo clientes de todas as faixas etárias e classes sociais. Vão aí algumas dicas para o farmacêutico começar seu negócio e garantir que o sonho se torne realidade:

 

Investigação, pesquisa

Antes de qualquer coisa, pesquise esse nicho de mercado. Obtenha fatos antes de qualquer outra coisa. Consulte sites que oferecem dicas, converse com empresários donos de farmácia, e realize contatos com empresas prestadoras deste tipo de serviço. Saiba quais os caminhos você deve trilhar antes de iniciar.

Plano de negócio

Assim como para planejar uma viagem é necessário escolher o local a ser visitado, decidir o tempo da viagem, quanto dinheiro levar, comprar passagens, reservar hotel, arrumar as malas, entre tantas outras coisas, o primeiro passo para quem sonha construir um negócio é visualizar quem serão seus fornecedores, aluguel, funcionários, despesas fixas e variáveis, quem são os profissionais que podem auxiliar no desenvolvimento de cada atividade, enfim, esse é só começo.

Ter uma mente empreendedora

O simples fato de querer abrir um negócio e ser um bom farmacêutico não é suficiente para iniciar e ter sucesso. É preciso estudar o mercado, aprender sobre localização, número de funcionários, gestão financeira, lucro, capital de investimento, capital de giro e muito mais.

Garantir o capital inicial

Dependendo do modelo de negócio, o investimento poderá ser de R$ 50.000,00 até R$ 200.000,00. É bom estar ciente dos gastos.

Gestão do negócio

Levantamento de dados da localização, quais farmácias seriam as concorrentes, quais as ferramentas de vendas elas utilizam, mídias de divulgação e campanhas de fidelização.

A legislação

A farmácia deve seguir as regras rigorosas de controle sanitário pela Lei Federal nº 5.991/73, com o risco de ser interditada caso haja alguma infração. Acompanhar as reuniões e treinamentos do conselho Federal e Conselho Regional de Farmácia, para estar conectado com as atualizações.

Capacitação da equipe

O atendimento primário de qualquer estabelecimento, seja comercial ou de saúde, pode gerar importantes resultados. A presença de um farmacêutico na farmácia é obrigatória em tempo integral. É preciso contratar pessoas com o perfil para atividade desejada, e lógico, treiná-la. A integração e capacitação dos colaboradores vão fortalecer a amizade da equipe, e consequentemente gerar bons resultados. Contrate, desenvolva parcerias com consultores, empresas especializadas em treinamento de recursos humanos.

Fique atento à decoração

Como estamos falando de estabelecimento de saúde, o mínimo que se espera é que os clientes possam encontrar um ambiente limpo, bem iluminado e com cores predominantemente claras. A equipe precisa estar engajada e ciente desses detalhes, para que não fique esperando somente a auxiliar da limpeza executar todo esse trabalho.

Tecnologia

Estamos vivendo um período de extrema mudança, quebra de paradigmas, mudanças de comportamento, onde todas as barreiras estão sendo quebradas e as distâncias encurtadas. A tecnologia de softwares de gestão em farmácias e drogarias, até as mídias sociais, sofrem constantes mudanças e adaptações, e por isso, é necessário que o empresário tenha um conhecimento básico para diagnosticar quais, realmente, são as ferramentas necessárias para o seu modelo de negócio.

Daqui para frente, os investimentos em mercadorias da linha de bem-estar, qualidade de vida, e de beleza e cuidados pessoais, podem ser essenciais para o aumento do faturamento neste negócio, pois as pessoas que entram numa farmácia em busca de um medicamento específico, quase sempre saem levando algum outro produto dessas seções. O empreendedor poderá também disponibilizar serviços adicionais, como: aplicação de injeções, telemarketing, entregas em domicílio, espaços para informações aos clientes com especialistas, entre outros, sempre atentando para as regras da agência reguladora.

 

11. Quais os cuidados para não se aventurar neste mercado?

A primeira dica é verificar se o empreendedor tem afinidade com o negócio e se questionar sobre o que terá que fazer como dono de uma empresa. Quem é empreendedor, o responsável pelas tomadas de decisões e por direcionar a empresa, o gestor que cuida da administração da empresa e o operador que executa o trabalho. Se esses questionamentos estiverem bem esclarecidos, será um ótimo começo.

O futuro empreendedor deve sempre pesquisar a fundo antes da decisão final, extenuar todas as possíveis dúvidas do seu negócio, das questões básicas às mais complexas, para que o seu negócio tenha fôlego para sobreviver muito além da média nacional. Um exemplo é que 27% das micro e pequenas empresas paulistas fecham as portas no primeiro ano de existência.

 

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12. Possui também a projeção e os fechamentos, em números, deste setor, provando que ele vai bem?

Algumas publicações recentes apontam que esse setor realmente está indo na contramão da crise. Recentemente foi divulgado pela Associação Nacional de Farmacêuticos Magistrais (Anfarmag) que as farmácias de manipulação, que representam 10% do setor farmacêutico do país, podem somar um faturamento total de aproximadamente R$ 5 bilhões, neste ano.

Quando buscamos informações sobre investimentos do setor, uma das que mais se destacam são sobre as grandes redes de farmácias e drogarias, que buscam a todo custo aumentar o número de unidades pelo país. E lógico, isso é mais um indicativo de que o setor não vai parar de crescer.

 

13. Tem mais alguma coisa que eu não perguntei que seria importante citar na matéria?

Como fica a prática da atenção farmacêutica, quanto aos medicamentos que são comercializados através de sítios eletrônicos?

A prática da “atenção farmacêutica” consiste em um conjunto de práticas realizadas pelo farmacêutico, visando à orientação do paciente quanto ao uso correto de medicamentos, segundo CFF.

O estabelecimento farmacêutico deve assegurar ao usuário o direito à informação e orientação quanto ao uso de medicamentos solicitados por meio remoto. Deve ser garantido aos usuários meios para comunicação direta e imediata com o Farmacêutico Responsável Técnico, ou seu substituto, presente no estabelecimento. No ato da entrega do medicamento deve ser entregue cartão, ou material impresso equivalente, (que não poderá utilizar designações, símbolos, figuras, imagens, marcas figurativas ou mistas, slogans e quaisquer argumentos de cunho publicitário em relação a medicamentos), devendo conter, nesse cartão, o nome do farmacêutico, telefone e endereço do estabelecimento, recomendação ao usuário para que entre em contato em caso de dúvidas ou para receber orientações relativas ao uso do medicamento, informações da ANVISA (Agencia Nacional de Vigilância Sanitária).

Entrevista Revista Gestão & Negócios 

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Fernando Muterle

Olá, eu sou Fernando Muterle - professor Universitário e também Fundador do “IMCF” . O IMCF foi criado com o objetivo de promover o Networking entre profissionais, estudantes e interessados, com temas pertinentes a saúde e qualidade de vida. Participe, assista as entrevistas e registre a sua opinião.

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